quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Mesa de bar

A mesa do bar. Aquela mesa do bar se tivesse o poder de falar, contaria inúmeras histórias. Histórias de amor, de briga e de desilusão. Afinal, quantos bêbados apaixonados confessaram as suas mágoas e os seus desamores nela? Quantos beijos, carícias e tapas na cara já aconteceram na sua presença?

Aquela mesa de bar sabia de muitos segredos. Segredos de casais oprimidos, reprimidos e que se encontravam apenas aos fins de semana e às escondidas. Ao longo da sua estadia no boteco do Luiz, localizado na esquina da rua São João, ela não foi apenas um utensílio. Diziam que a sua presença era primordial para a freguesia do local. Acredite, muitos eram capazes de competir por ela.

Claro, havia outras mesas. Outras cadeiras. No entanto, ela era especial, não por seu formato nem por sua cor. Nada disso era levado em conta. Muitos comentavam que era praticamente um mito. Um mito que, como já foi mencionado, presenciou inúmeras histórias. Vamos a um exemplo:

Certa vez a mesa de bar do boteco do Luiz acompanhou o início, o meio e o fim de um amor. Não, não foi um amor simples. Também não era um dos mais complicados. Era apenas mais um amor que tinha tudo para ser convencional e, para falar a verdade, até era. Quem acompanhou a história daquele casal sempre dizia que os seus encontros eram um espetáculo.

Ganharam plateia. Público de programa de auditório. Quando se amavam, se amavam loucamente. Faltava até chegarem às vias, de fato, na frente de todos. Quando discutiam, se estapeavam e eram capazes de quebrar copos, tigelas e talheres do pobre Luiz, que já estava na casa dos 80 anos e, assim como os demais, também desempenhava muito bem a sua função de espectador. E não se importava. A postura dos apaixonados já era conhecida por todos.

A mesa perdurou por anos no boteco da esquina da rua São João. Acompanhou a infância, a juventude e a velhice de seu dono. Esteve presente em seu casamento, serviu de banco para os seus filhos, quando pequenos, e acompanhou os inúmeros relacionamentos das crias de Luiz.

Poderia ser passada de herança, entretanto, padeceu do mesmo mal que o seu proprietário: a morte. Isso porque seu dono, depois de passar meses longe de sua querida mesa – já que ela era disputada por seus clientes –, encontrou uma brecha e sentou-se para tomar uma aguardente. Depois de dois goles de sua bebida predileta, o velho apagou.

Apagou sobre a mesa. Debruçado, agarrado, colado nela. Como se fosse a sua melhor amiga, amada e amante. Havia uma expressão de alegria em seu rosto.
Morreu feliz.

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