Recebeu logo quando nasceu o nome de Clarice Monteiro. Pertencia a uma família nada tradicional e de costumes um tanto que liberais. No colégio foi dona de poucos amigos e manteve a mesma linha na universidade.
Era dona de pensamentos diferentes e era constantemente questionada por seus familiares sobre sua vida sentimental que ainda não tinha começado.
Havia gostado de poucos e ainda não tinha se relacionado com ninguém. Pouco saia de casa; preferia ficar em seu quarto consigo mesma e com seus livros e filmes. Não era dona de um mundo quadrado e muito menos de um retangular. Possuía sim um mundo triangular. Um mundo em formato de triângulo isósceles.
Clarice poderia muito bem ter escolhido um mundo mais fácil, um mundo em formato igual ou até mesmo com dois lados iguais e um distinto; mas ela era tão diferente que resolveu complicar até nisso.
Achava a maioria das pessoas superficiais demais para o mundinho que vivia. Para ela os demais não eram dotados de sentimento. Saber que alguns davam mais importância para o carro do ano, para roupas de marca e que se esqueciam dos sentimentos era triste demais. Ela era tão profunda, tão intensa.
Em uma estranha noite, depois de ter tido um dia comum, Clarice se sentiu diferente. Levantou-se da cama impulsivamente, trocou de roupa, deu uma longa olhada no espelho, proferiu algumas palavras mudas e pulou a janela do quarto.
Decidiu que naqueles momentos que estavam por vir se chamaria Sarah Brum e que não teria mais 18 anos. A partir do momento em que pulou a janela, teria sim 22 anos completos, que havia se formado e que já trabalhava em sua profissão.
Decidiu também que possuiria também uma vida bem resolvida, um namorado e que futuramente teria seu próprio “lar doce lar” – onde os dois morariam e teriam seus filhos.
Andava pelas ruas e tentava agir como os demais. Tentava não aparentar estranhamento já que tinha saído demais do seu mundo triangular. Virava as esquinas, se sentia confiante, achava que sabia o que estava fazendo.
Depois de horas caminhando, entrou em um barzinho – o mais badalado e famoso da cidade, justamente aquele que jurou que nunca entraria. Ficou horas procurando um lugar para sentar. Encontrou. Sentou-se e pediu um refrigerante com limão e gelo.
Logo que o garçom chegou com sua bebida, Sarah banhou seu dedo indicador no líquido para misturar o gelo. Quando o retirava de dentro do copo, lambia o mesmo. Tinha essa mania desde pequena.
De repente notou que um grupo de três amigos que tinham acabado de chegar estavam indo em direção à sua mesa. Quando finalmente chegaram perto, perguntaram se podiam se sentar já que não havia mais lugares. Ela deixou e passou a prestar atenção na conversa dos jovens rapazes.
Eles conversavam sobre seus casos repentinos – nada amorosos por sinal, e perguntavam para Sarah o que ela achava de tudo aquilo que escutava. Ela, fingindo que estava sozinha naquela mesa, não respondia nada. Estava mais preocupada em terminar o que bebia e sair de lá rapidamente.
Subitamente se levantou e deixou para trás tudo o que tinha escutado. Fez o mesmo trajeto da ida e se isolou dento de si mesma. Se questionava sobre sua vida comparada com a dos outros, se queria mesmo entrar naquele mundo superficial e se valia a pena mesmo se transformar em Sarah Brum definitivamente.
Aos poucos foi percebendo que queria e deveria continuar sendo quem sempre foi: Clarice Monteiro. Percebeu também que prezaria sim pelo seu mundo sentimental e que seria sempre dona de si mesma.
Voltando a ser quem era, entrou em seu quarto e deixou Sarah para trás. Voltou a ser a universitária com apenas 18 anos e com a mesma vida sentimental mal resolvida.
Despiu-se, colocou seu pijama, tirou a maquiagem que havia passado, olhou-se no espelho e agradeceu por sua volta. Deitou-se na cama, cobriu-se e antes de fechar os olhos decidiu que continuaria a viver no seu mundo triangular – mesmo com todas as dificuldades.
Pegou no sono rapidamente, virou para a esquerda e sentiu inconscientemente que acordaria mais Clarice do que nunca no dia seguinte. Sentiu também que tudo tem seu momento certo para acontecer e que mesmo sendo diferente dos outros ainda era e que seria muito feliz ainda. Ela se amava, se gostava, e é isso que importa.
Nota:
Inpirado em um texto do blog O Mundo de Sofisma.
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